Nossa Senhora da Conceição de Jacarehy

Ana Luiza do Patrocínio

Historiadora e doutoranda em Educação pela Universidade Federal São Paulo – Unifesp

 

“Nossa Senhora da Conceição de Jacarehy” foi realizado pela então “Indústria de Papel Simão S/A”, hoje “Suzano Papel e Celulose”. Este livro foi escrito em 1990, em comemoração aos 65 anos da empresa, pelos professores Ivone Tessin Weis e Benedito Viana dos Santos, com revisão histórica do professor Doutor Claudio Bertolli.

Pelo que se depreende da ficha catalográfica foi uma encomenda da “Indústria Papel Simão” a então FVE – Fundação Valeparaibana de Ensino, antigo nome da Universidade do Vale do Paraíba – Univap.

Este livro tem o formato maior que o padrão 14 X 21, muito bem ilustrado com fotos e desenhos a bico de pena, inclusive a capa.

Isto se deve, em parte, aos autores.

Ivone Tessin Weis era formada em Pedagogia, professora da Univap e teve uma longa vida ligada às artes, sendo responsável pelo “Escolinha de Artes do CTA (Centro Técnico Aeroespacial) de São José dos Campos. Este projeto tinha um caráter pedagógico relacionando arte e educação na formação do indivíduo e foi baseado em projeto similar desenvolvido por Augusto Rodrigues, no Rio de Janeiro.

Quanto a Benedito Viana dos Santos, poucos dados foram encontrados. Mas também era professor da Univap no curso de Pedagogia na década de 1990, orientando trabalhos diversos que iam da história da educação a implantação de cursos de Artes.

Quanto ao revisor histórico, o professor Doutor Claudio Bertolli foi docente da Univap durante a década de 1990, de História Ibérica e História do Vale do Paraíba. Escreveu vários artigos sobre a região e um livro até hoje muito referenciado, “Vale do Paraíba, saúde e sociedade: 1750 a 1822”, provavelmente, um dos únicos a tratar da questão sanitária e de vacinas na

região ainda no século XVIII, utilizando o valioso acervo dos “Documentos Interessantes para História e Costumes de S. Paulo”. Atualmente, o professor doutor Claudio Bertolli é professor emérito da Unesp de Ribeirão Preto.

Com relação a obra, ela segue uma histórica cronológica, que começa com as origens das cidades coloniais e a importância das suas fundações para a expansão portuguesa pelo Brasil.

Apesar dos textos de vocabulário bem acessível e agradável, estes primeiros dois capítulos demonstram o conhecimento e o cuidado do historiador Claudio Bertolli, grande conhecedor da história da região e pesquisador incansável. Estes capítulos preparam e mostram a fundação de Jacareí, transcrevendo, pela primeira vez, inclusive, o foral de elevação de vila, documento fundamental para o início da história da cidade.

Os próximos capítulos podem ser lidos de forma separada porque muitos deles tratam de episódios isolados da história de Jacareí, como a “Revolta do Sal” de 1711, capitaneada por Bartolomeu Fernandes de Faria, figura controversa por ser herói para alguns e criminoso para a Coroa Portuguesa.

O capítulo seguinte fala das lavouras do Vale do Paraíba, presentes também aqui: açúcar, trigo e fumo, além de muitos porcos e gado muar.

É, com o café, entretanto, que a riqueza chega a Jacareí e a transforma de vila em cidade, através das inúmeras fazendas que foram surgindo. A própria cidade foi transformada, urbanizando-se, aformoseando-se e trazendo diversos profissionais liberais e prestadores de serviços; palacetes foram construídos, móveis importados, bem como baixelas inglesas, pianos e outros adereços finos.

Com o café, veio a necessidade também de melhores meios de comunicação e de transporte, por isso a ferrovia aqui chegou em 04 de julho de 1876, junto com o telégrafo, um dos precursores do telefone. O trem escoava a produção de café e fazia uma importante ligação com as capitais, em especial, São Paulo.

O capítulo seguinte trata da etapa posterior, o período após a decadência do café. Segundo os autores, duas cidades sobrevivem a derrocada da produção cafeeira: Mogi das Cruzes e Jacareí. E a isso é atribuído a existência de pequenas e médias propriedades rurais não ligadas ao café, a imigração e a atividade industrial que se iniciou quase ao mesmo tempo em que a Abolição da Escravatura aconteceu.

De acordo com o livro, são estas várias migrações, destacando-se os sírio-libaneses e os italianos, com suas várias indústrias e comércios, que revitalizaram a economia jacareiense no perigoso período de decadência cafeeira.

Aliás, foi também a facilidade de transporte e as condições naturais da localidade, como a presença do eucalipto do tipo “Saligna” que fez com que a então “Indústria Papel Simão” escolhesse Jacareí para se instalar

A narrativa se concluiu com uma pequena menção a variedade de escolas e jornais da cidade no século XIX para fazer uma reflexão sobre o “ethos” jacareiense que une a tradição dos tempos passados com a modernidade de suas indústrias.

Por fim, após o texto, o livro se encerra com um bonito álbum com fotografias da cidade, todas da primeira metade do século XX, notadamente de suas primeiras décadas.