No acervo do Macedo
Autor da Quinzena:
Gil Vicente nasceu em 1465 na cidade portuguesa de Guimarães. E estudou na Universidade de Salamanca, Espanha.
Primeiramente, casou-se com Branca Bezerra, com quem teve dois filhos. Após a morte de sua esposa, casou novamente com Melícia Rodrigues e com ela teve outros três filhos.
Seu primeiro trabalho foi o “Auto da Visitação”, também chamado de “Monólogo do Vaqueiro”. Este foi apresentado na presença do rei Dom Manuel e da rainha Dona Maria em 1502 na celebração do nascimento do príncipe que viria a ser o futuro D. João III. Além de ter escrito a peça baseada na adoração dos magos, também participou como ator.
Nos anos seguintes, organizou diversos eventos, festejos e celebrações da realeza sempre aproveitando para apresentar seus textos.
Assim, com grande aprovação do público e da Corte portuguesa, Gil Vicente passa a ser um nome reconhecido, escrevendo cada vez mais peças de teatro.
Em 1511 foi nomeado vassalo do rei e mais tarde, mestre da balança da Casa da Moeda (1513). Faleceu por volta de 1536 em local desconhecido.
Além de dramaturgo, foi também poeta. Gil Vicente escreveu poemas e obras de dramaturgia (autos e farsas), das quais merecem destaque: Monólogo do Vaqueiro ou Auto da visitação; Auto Pastoril Castelhano; Auto dos Reis Magos; O Velho da Horta; Auto da Barca do Inferno; Auto da Barca do Purgatório; Auto da Barca do Paraíso; Auto da Sibila Cassandra; Auto da Festa; Auto da Índia; Farsa de Inês Pereira e Floresta de Enganos O teatro de Gil Vicente, chamado de Teatro Vicentino, teve origem em 1502 com a apresentação de seu texto “O Monólogo do Vaqueiro”. Suas peças, de caráter popular, possuem um forte teor satírico. Nas obras mais emblemáticas, ele critica os costumes da sociedade portuguesa, tecendo um fiel retrato de sua época. Além do caráter satírico, o conteúdo das obras apresentava um teor moralizante, repleto de humor.
Livro da Quinzena:
O poema dramático “Morte e Vida Severina” é a obra-prima do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Escrito entre 1954 e 1955, trata-se de um auto de Natal de temática regionalista. O poeta, que nasceu no Recife, transformou em poesia visceral a condição do retirante nordestino, sua morte social e miséria.
“Morte e Vida Severina” retrata a trajetória de Severino, que deixa o sertão nordestino em direção ao litoral em busca de melhores condições de vida. Nessa peregrinação, encontra pelo caminho outros nordestinos que, como ele, passam pelas privações impostas ao sertão. A aridez da terra e as injustiças contra o povo são percebidas em medidas nada sutis do autor. Assim, ele retrata o enterro de um homem assassinado a mando de latifundiários.
Assiste a muitas mortes e, de tanto vagar, termina por descobrir que é justamente ela, a morte, a maior empregadora do sertão. É a ela que devem os empregos, do médico ao coveiro, da “rezadeira” ao farmacêutico.
Nota, ao vagar pela Zona da Mata, onde há muito verde, que a morte a ninguém poupa. Retrata, contudo, que a persistência da vida é a única a maneira de vencer a morte. No final, Severino pensa em suicídio jogando-se no rio Capibaribe, mas é contido pelo carpinteiro José, que fala do nascimento do filho.
A renovação da vida é uma indicação clara ao nascimento de Jesus, também filho de um carpinteiro e alvo das expectativas para remissão dos pecados.
“Morte e Vida Severina” é um poema de construção dramática com exaltação à tradição pastoril. Ele foi adaptado para o teatro, a televisão, o cinema e transformado em desenho animado.
Por meio da obra, João Cabral de Melo Neto, que também era diplomata, foi consagrado como autor nacional e internacional. A obra é, acima de tudo, uma ode ao pessimismo, aos dramas humanos e à indiscutível capacidade de adaptação dos retirantes nordestinos.
Fato / Personagem da Quinzena:
Durante os primeiros meses da Primeira Guerra Mundial, as tropas alemãs atacaram a França através do território belga. As tropas foram repelidas de Paris pelos franceses e britânicos na Batalha do Marne, no início de setembro de 1914. Os alemães se refugiaram então no vale do Aisne, onde permaneceram em posição defensiva. Na batalha posterior — primeira batalha do Aisne —, as forças aliadas não foram capazes de avançar através da linha alemã, e a luta rapidamente chegou a um impasse: nenhum dos lados estava disposto a ceder terreno e ambos começaram a construir sistemas fortificados de trincheiras. Ao norte, à direita do exército alemão, não havia uma linha de frente definida, e ambos os lados tentaram rapidamente usar essa brecha para se flanquearem uma à outra. Durante a corrida para o mar que se seguiu, os dois lados se enfrentaram repetidamente, cada um tentando avançar à frente do outro. Depois de vários meses de luta, durante os quais as forças britânicas foram retiradas do Aisne e enviadas para o norte em Flandres, o flanco norte estava em um impasse semelhante. Em novembro, havia uma linha de frente contínua, desde o mar do norte até a fronteira suíça, a qual era ocupada em ambos os lados pelos exércitos preparados em posições defensivas. Essas posições duraram quase todo o tempo da guerra.
Em 1914, entretanto, uma trégua não oficial começou na véspera de Natal, 24 de dezembro, quando as tropas alemãs decoraram o entorno de suas trincheiras na região de Ypres, Bélgica, havendo várias outras tréguas esparsas que perduraram, por até seis dias. Por não ser oficial, houve vários locais em que a batalha sangrenta prosseguiu mesmo durante o dia de Natal.
À noite, os alemães começaram a cantar canções de Natal. Os britânicos responderam cantando as suas próprias canções. Houve casos em que alemães e ingleses começaram, de suas próprias trincheiras, a cantar unidos os mesmos cânticos natalinos, ainda que em suas próprias línguas e versões.
Os dois lados continuaram gritando saudações de Natal um para o outro, até que começaram a surgir convites e iniciativas de ambos os lados para uma trégua e até um encontro pacífico, como, por exemplo, o descrito anos depois pelo capitão alemão Josef Sewald, do 17º Regimento Bávaro: “Gritei para os nossos inimigos que não queríamos atirar e que faríamos uma trégua de Natal. Disse que eu viria do meu lado e que poderíamos conversar entre nós. A princípio, houve silêncio, voltei a gritar e um inglês gritou, “Parem os tiros!” Aí um deles saiu das trincheiras e eu fiz o mesmo, e nos aproximamos e trocamos um aperto de mãos –— um tanto cautelosos!”. Pouco depois, começaram a se fazer travessias através da “terra de ninguém”, onde eram trocados alguns presentes, como tabaco, alimentos, álcool, ou recordações como botões e chapéus. A artilharia nesta região permaneceu em silêncio.
Na manhã de Natal, uma Missa bilíngue foi rezada por um padre escocês e um seminarista alemão, selando o momento de ecumênica harmonia, “um espetáculo extraordinário”, deslumbrou-se o tenente Arthur Pelham Burn, do 6º Regimento dos Highlanders. “Os alemães alinhados de um lado, os britânicos de outro, os oficiais à frente, todos de cabeça descoberta.” É sabido foi realizada, ao menos, uma partida de futebol amistosa envolvendo soldados franceses, alemães e ingleses, em Saint-Yves, durante o dia de Natal. A trégua também permitiu que os soldados mortos recentemente pudessem ser trazidos de volta para suas linhas para poderem ser enterrados. Foram realizados vários funerais em conjunto. A confraternização teve alguns riscos; alguns soldados foram mortos pelas forças da oposição. Em muitos setores, a trégua durou apenas até a noite de Natal, mas em outras continuou até ao Dia de Ano Novo.
Garimpando o acervo:
“Os Sertões” é uma das obras mais emblemáticas do escritor pré-modernista Euclides da Cunha (1866-1909), publicada em 1902.
A obra regionalista narra os acontecimentos da sangrenta Guerra de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro (1830-1897), que ocorreu no Interior da Bahia, entre 1896 e 1897.
Trata-se de um relato histórico mesclado à literatura, posto que Euclides foi convidado pelo jornal “O Estado de São Paulo” para cobrir a guerra no Arraial de Canudos e, nesse momento, surgiu sua obra.
Por esse motivo, “Os Sertões” representa um marco da literatura e na história do Brasil, sendo, portanto, analisada por outras áreas do conhecimento, tal qual: Antropologia, Sociologia, Geografia e História.
A obra possui um caráter crítico e realista nunca antes abordado por um literato do Brasil, donde Euclides por meio de uma linguagem cientificista recrimina o nacionalismo e ufanismo exacerbado da sociedade brasileira da época, mostrando a face cotidiana e realista do país e das pessoas que o compõem.
“Os Sertões” é uma obra extensa com cerca de 630 páginas, dividido em 3 partes, as quais são constituídas por diversos capítulos, a saber:
1 – A Terra: Descrição do ambiente (local, clima, relevo, fauna, flora, vegetação, etc.) do sertão e da seca que assola a região.
2 – O Homem: Descrição do homem, da vida e dos costumes do sertão, ou seja, do sertanejo. Trata-se de um estudo antropológico e sociológico, donde o homem é determinado pela tríade – meio, raça e história – segundo a teoria determinista do historiador francês Hippolyte Taine (1828-1893).
3 – A Luta: Descrição da Guerra de Canudos que dizimou grande parte da população nordestina. Trata-se de um estudo historiográfico, dividido em 34 capítulos, narra as quatro expedições realizadas pelo exército e ainda sobre o período do pós-guerra:
A história termina com o trágico desfecho e a destruição de Canudos.