No acervo com Macedo

Introdução:

Nesse espaço vamos quinzenalmente focar quatro tópicos: autor, obra, fatos/peronagens históricos e obra pouco emprestada da Biblioteca. A ideia é que esses pequenos excertos despertem nos internautas-leitores a chama da curiosidade em conhecer mais sobre as pessoas e os assuntos, em especial, as obras que serão focadas.

Autor da Quinzena:

Esta biografia, retirada em sua maior parte do site Wikipédia e de outros sítios na internet, não traduz nem de longe a trajetória guerreira dessa grande escritora, pouco conhecida de nós, brasileiros. É uma figura ímpar, cuja obra deve ser melhor conhecida. Apresento-lhes, portanto, Maria da Conceição Evaristo de Brito, mais conhecida como Conceição Evaristo.

Ela nasceu em 29 de novembro de 1946, na Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, filha de Joana Josefina Evaristo. Segundo relato da própria Conceição, sempre tratou como pai a Aníbal Vitorino, que se tornou seu padrasto ainda na infância. A família viveu seus primeiros anos na favela do “Pindura Saia”, uma comunidade extinta na década de 1970, localizada da zona sul de Belo Horizonte. Sua família era muito pobre e numerosa, tendo nove irmãos, Conceição era a segunda mais velha.

Conceição foi incentivada, principalmente, por sua mãe, e acabou estudando o ensino fundamental em outra região da cidade, que tinha escolas mais prestigiadas, pois esta considerava que as escolas da região da favela eram menos favorecidas e limitariam o aprendizado de sua filha. Mais tarde, saiu da favela para poder conciliar os estudos do curso normal enquanto trabalhava como empregada doméstica, concluindo-o em 1971, já aos 25 anos.

Mudou-se então para a cidade do Rio de Janeiro, em 1973, onde passou num concurso público para o magistério, permanecendo ligada aos quadros do município até o ano de 2006; neste ínterim, nas décadas de 1970 e 1980, também foi professora da rede municipal de Niterói.

Prestou vestibular em 1987 para o curso de Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conseguindo bolsa de pesquisas durante o período.

Formou-se no ano de 1990. No seio da universidade, ainda na década de 1980, entrou em contato com o grupo “Quilombhoje”, que a incentivou a iniciar sua escrita. Estreou na literatura em 1990 com obras publicadas na série “Cadernos Negros”, também do mesmo grupo.

Entre 1992 e 1996 cursou mestrado em Letras-Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

A partir de 1999 licenciou-se da prefeitura do Rio de Janeiro e passou a lecionar na Universidade Federal Fluminense (UFF), mantendo este vínculo até o ano de 2011.

Em 2008 ingressou no doutorado em Letras-Literatura Comparada da Universidade Federal Fluminense, concluindo os estudos em 2011.

Após seu doutoramento, serviu como professora em diversas instituições, tais como o Middlebury College, a PUC-Rio, a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), a Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Suas obras, em especial o romance “Ponciá Vicêncio”, de 2003, abordam temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. Este primeiro romance foi foco de pesquisa acadêmica pela primeira vez, no Brasil, em 2007, tendo já sido traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos no mesmo ano.

Em 2017, Conceição Evaristo foi tema da Ocupação do Itaú Cultural de São Paulo. Já em 2019, ela foi a grande homenageada da Bienal do Livro de Contagem.

No dia 18 de junho de 2018, Conceição Evaristo oficializou sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, entregando a carta de auto apresentação para concorrer à cadeira de número 7, originalmente ocupada por Castro Alves. A eleição ocorreu em 30 de agosto e ela recebeu um voto.

Não obstante isso, ganhou o prêmio Jabuti de Literatura de 2015, na categoria Contos e Crônicas, por “Olhos D’Água”. Recebeu, também, os prêmios Faz a Diferença – Categoria Prosa, de 2017; Prêmio Cláudia – Categoria Cultura, de 2017; e o prêmio de Literatura do Governo do Estado de Minas Gerais, de 2017. Também ganhou o prêmio Bravo (revista) como Destaque 2017. E foi homenageada pela 61ª edição do Prêmio Jabuti como “Personalidade Literária do Ano”.

Livro da Quinzena:

“Memórias Póstumas de Brás” é uma das obras principais do escritor Machado de Assim. Foi publicada em 1881 e é considerada a obra inaugural do Movimento Literário Realista no Brasil.

Dividida em 160 capítulos intitulados, a história é narrada por um defunto chamado Brás Cubas, que assim começa o texto:

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas

A obra tem início com a declaração da morte de Brás Cubas, cujo narrador e protagonista relata suas memórias depois de ter sido vítima de pneumonia. A seguir, narra seu enterro onde aparecem onze amigos seus.

De família abastada, Brás Cubas começa, então, um longo “flash-back” desde a sua infância, adolescência e juventude até os anos finais de velhice e solidão.

Entres os destaques destas reminescências são a relação dele com o escravizado Prudêncio, que seria o “colega de brinquedos” de Brás Cubas, mas que era por ele explorado.

Mais tarde, tem seus amores pela prostituta Marcela interrompidos pelo pai que o manda estudar Direiro em Coimbra. Voltando, apaixona-se por Virgínia que o troca por um político importante e o aceita apenas como amante.

Por fim, Brás Cubas entra para a política e mesmo desenvolvendo um trabalho medíocre nessa posição, recebe um certo “status”, num mundo onde a aparência era o mais louvável. Ao mesmo tempo fia seus sonhos de sucesso no desenvolvimento de um emplastro milagroso.

E assim sua vida vai se desenrolando, e Brás Cubas vai envelhecendo solitário e sem ter feito nada de relevante na vida. Com a ajuda da irmã, ainda faz uma última tentativa de casar-se e ter filhos. Fica noivo de Eulália, moça pobre e sobrinha do cunhado Cotrim. A moça, porém, adoece e morre antes do casamento. No último capítulo, o defunto ironiza seus fracassos afirmando que a vida é mesmo uma miséria e não vale a pena perpetuá-la através dos filhos.

Fato / Personagem da Quinzena:

A Revolta da Chibata foi um movimento contra os castigos físicos ocorridos na Marinha de Guerra do Brasil. A princípio, as chibatadas e todos as repreensões degradantes tinham sido abolidas por ocasião da promulgação da Constituição de 1891. Porém, com o passar do tempo, as leis foram sendo modificadas e os castigos voltaram até piores do que antes.

A revolta, inclusive, foi precedida de pequenos protestos que aconteciam a miúde em várias ocasiões antes de 1910 sempre quando um marujo recebia as chibatadas em público.

A revolta tem um forte componente racial, pois o oficialato da Marinha era formado por brancos e filhos de antigos fazendeiros do período Imperial enquanto a marujada era composta em sua maioria de negros, muitos ex-escravizados ou seus filhos.

O seu principal líder era João Cândido Felisberto, nascido em 24 de junho de 1880, em Encruzilhada do Sul, filho de ex-escravos da fazenda Coxilha Bonita. Muito cedo, aos 13 anos, ingressou na Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre com recomendação de um militar, amigo da família. Ele passaria os próximos 17 anos em viagens com a Marinha de Guerra, muitas delas no exterior.

Foi nessas viagens internacionais, que conheceu história da Revolta do Encouraçado Potemkin e o movimento sindical dos marinheiro ingleses.

Inteligente, disciplinado e com boa postura, era admirado pelos colegas e pelos superiores, com que tinha boa relação. Para muitos, era um líder natural.

A consciência dos direitos dos marujos no mundo em contraste com o Brasil e a noção do racismo presente na Marinha fez explodir o motim no dia 22 de novembro de 1910, tendo como estopim mais uma sessão de chibatas em que um marinheiro cearense recebeu 250 de única vez.

Diante disso, João Cândido se utilizou de sua autoridade natural e deflagrou a revolta, controlando os mais modernos encouraçados da época, o Minas Gerais e o São Paulo, apontando seus canhões para a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal.

O presidente da época, Hermes da Fonseca (1910-1914), recebeu as reivindicações dos amotinados. Durante as negociações, foi prometido que as chibatadas seriam abolidas e o marujos anistiados. Entretanto, pouco depois de encerrado o evento, os marinheiros foram presos, suas lideranças foram mandadas para as “Ilhas das Cobras”; outros foram mandados para o Acre e outros ainda trabalharam forçadamente na construção da ferrovia Madeira-Mamoré. João Cândido sobreviveu à Ilha das Flores, foi internado no hospício e depois foi expulso da Marinha, vivendo a partir de então como vendedor de peixe na Praça XV.

Em 1964, participou da revolta dos Marinheiros nos estertores do governo João Goulart. Morreu em 06 de dezembro de 1969, sem nunca ter sido anistiado e reintegrado à Marinha do Brasil. Recentemente, seu nome foi autorizado a ser incluído no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria” ou “Livro de Aço”, no entanto a Marinha disse não se pronunciar a respeito porque ainda considera João Cândido traidor e marinheiro sublevado.

Garimpando o acervo:

Na lembrança dos 200 anos de nascimento do escritor russo Fiódor Dostoiéviski, destaca-se sua obra prima, “Crime e Castigo”. Segundo livro de uma extensa produção, foi publicado em 12 edições mensais na revista “O mensageiro russo” em 1866, e depois reunidas num único volume no ano seguinte.

Segundo as características do autor, a obra mescla visões de religião e existencialismo, bem como questões sobre o socialistmo e o niilismo com foco na salvação atingida através do sofrimento.

A trama centraliza-se num ex-estudante de direito Raskólnikov, extremamente pobre e angustiado pela necessidade de fazer algo importante. As circunstâncias o levam a matar uma velha agiota e, por uma situação de supresa, também a irmã desta.

Raskólnikov roubou algumas joias das mulheres, mas não chega a vendê-las, somente escondendo-as. A partir daí, ele passa a sentir o remorso pelos homicídios. Diversas histórias se cruzam com a trama principal e até mesmo um inocente é preso pelo assassinato da agiota.

Por fim, Raskólnikov confessa seu crime e aceita sua punição.

Este resumo, que entrega algum “spoiler”, não traduz a escrita e as reflexões a respeito de um crime e o seu necessário castigo. A reflexão filosófica que Dostoiéviski realiza sobre a humanidade, seus pecados e sua redenção faz dessa obra um dos 100 melhores livros de todos os tempos, de acordo com BBC Culture. Mais do que a punição, o livro nos entrega um pungente estudo sobre o seu humano.