Retalhos da memória

Ana Luiza do Patrocínio

Historiadora e doutoranda em Educação pela Universidade Federal São Paulo – Unifesp

“Retalhos da memória” foi escrito pelo historiador memorialista Benedicto Sérgio Lencioni e lançado em 1999, sendo editado pela JAC editora, tem 224 páginas.

 

Como o próprio nome diz é uma coletânea de histórias e reminiscências, muitas delas inéditas que tem como palco lugares importantes para a cidade de Jacareí e para o próprio autor.

 

Escrito e lançado nos últimos anos do século XX, foi certamente influenciado pelo momento de reflexão por que passaram todos os que viveram a virada do milênio. Por aquele período, várias obras de diversos enfoques foram apresentadas, mas todas com essa base comum, o ensaio sobre a mudança que um simples calendário poderia interferir na vida das pessoas.

 

O ano 2000 (ou 2001, se levarmos em conta que o calendário começa em “1” e termina em “0”) sempre fascinou várias gerações, principalmente porque não era apenas o início de um século, mas de um novo milênio. A última vez que isso tinha acontecido foi na Idade Médica, bem estudado pelo historiador francês Georges Duby em seu clássico “O ano mil”.

 

Imaginado e desejado por muitos, a ilusão de um futuro do ano 2000 foi apresentado para várias gerações do século XX, através de vários filmes e livros, principalmente de ficção científica, que fizeram muitas pessoas sonharem com um futuro que nunca se concretizou. Já se vão vinte e um anos e poucas coisas imaginadas realmente surgiram, como os carros voadores ainda em fase de protótipo; outros objetos sequer imaginados fazem parte do nosso quotidiano de forma quase orgânica, como o smartphone. Daí, a ansiedade que tomou conta daqueles que vivenciaram a virada do calendário, que foi melhor traduzido pelo medo do “bug do milênio”, um suposto mal funcionamento dos computadores que ocorreria quando se mudasse as datas de 31/12/1999 para 01/01/2000.

 

Foi nessa época da virada, de medos e de grandes esperanças, que o livro foi lançado. Sendo composto por um prefácio e 16 capítulos, que podem ser lidos separadamente, representam cada qual uma lembrança do autor sobre algum tema, evento, local ou época da cidade.

 

Com muitas fotos ao longo da obra, o autor visita ou revisita inúmeros temas caros à história da cidade, como a iluminação elétrica, a proclamação da República, o colégio Nogueira da Gama, a presença da Estrada de Ferro, a história do cinema, as festas religiosas e cívicas com destaque para quatro festejos: o Corpus Christi, a Semana Santa, a festa do Divino Espírito Santo e a celebração da Imaculada Conceição, padroeira da cidade.

 

Nesse caminho nostálgico, as imagens de uma Jacareí de outrora são saudadas com carinho pelo autor, ilustradas pelas fotografias que eternizaram aqueles tempos e, principalmente, as pessoas que nele viveram.

 

Percebe-se uma grande vontade do autor de guardar para si e para as gerações vindouras a história da cidade, que também é sua própria história. 

 

No final, dois capítulos destoam dos dezesseis apresentados: “Dr. Franciso Cossermelli” e “Corumbeba”

 

O primeiro é uma história pungente, trágica em fatos e rica em superação de um homem que percorreu uma longa e sinuosa estrada rumo ao seu objetivo: tornar-se advogado. Mesmo quando queria desistir, o destino não deixava, empurrando acontecimentos trágicos.

 

O segundo se chama “Corumbeba”, que é também o nome de um livro sobre o doutor Pompílio Mercadante, publicado em Taubaté.

 

Corumbeba é nome da pescada-branca (Cynoscion leiarchus), que é uma espécie sul-americana muito popular no Brasil. É conhecido pelo nome de perna-de-moça, pescada-de-rede, pescada-do-reino, pescada-perna-de-moça e pescadinha.