O Corneta da Morte – Lencione

Ana Luiza do Patrocínio

Historiadora e doutoranda em Educação pela Universidade Federal São Paulo – Unifesp

 

Do mesmo autor, Benedicto Sérgio Lencioni, “O corneta da Morte – ensaio sobre a verdade na História” foi publicado em 2011 e trata de um personagem quase lendário chamado corneteiro Jesus, ou talvez corneteiro João José de Jesus, que provavelmente partiu com o 1º grupo de Voluntários da Pátria de Jacareí, em 1866.

A partir de vários relatos de muitos autores que apontavam a origem de João José de Jesus como sendo Jacareí, o professor Lencioni tenta traçar uma trajetória de todos esses documentos até descobrir como esse mito / história foi elaborado.

Ao lado de “Jacareí: questões controvertidas”, de 1994, esta é uma das suas obras mais diferenciadas, porque foge do padrão de história cronológica e linear que tanto a produção dele quanto de outros autores costuma seguir quando se trata de história da cidade.

Dividido em 11 capítulos e 01 anexo, o livro começa com uma introdução em que o autor explica sua posição como pesquisador. Ele se diz um homem em busca da verdade e que a sua pesquisa é séria e conscienciosa, procurando encontrar em meio às várias narrativas da Guerra do Paraguai o fato que originou a lenda do corneteiro Jesus.

O primeiro capítulo procurar explicar para o leitor o que foi a Guerra do Paraguai e qual o significado dela para a região e como Jacareí se liga a ela. O segundo discute as fontes históricas para o entendimento deste conflito. O terceiro conta a história do Corpo de Voluntários da Pátria e o 7º batalhão que era proveniente de São Paulo. O quarto explica a função do soldado corneteiro dentro do Exército e da guerra naquela época. O quinto capítulo tenta explicar quem era João José de Jesus.

Todos os capítulos precedentes são uma preparação para o principal item e núcleo de toda a obra: o suposto ato heroico de João José de Jesus na batalha de Tuiuti em 24 de maio de 1866 e as narrativas que se seguiram.

De uma simples menção num jornal até narrativas elaboradas, com detalhes de que não sabe a origem. Uma narrativa construída ao longo de quase 70 anos e hoje repetida sem muito questionamento.

Este é o objetivo deste livro. Uma vez que a origem do acontecimento permanecerá incerta, o autor se entrega à pesquisa para entender como ela surgiu entre as narrativas dos antigos combatentes e como a cidade de Jacareí foi inserida nesta narrativa.

Nessa viagem ao coração da história, ele apresenta a narrativa através dos tempos e de vários personagens, que foram contando e recontando os fatos heroicos da Guerra do Paraguai, já tão distantes de nós, quanto já eram para eles nas décadas 1940 e 1950, lembrando que um dos últimos voluntários, José Paula de Abreu, havia morrido em 1918.

Na década de 1940, João Batista Denis Neto, o Jobanito, então editor do jornal “O combate”, influenciado pelas histórias da Guerra do Paraguai que foram publicadas em diversas revista e jornais nacionais e que trouxe novamente a memória do corneteiro, fez uma campanha para que, inclusive, houvesse a mudança do nome da “rua da Misericórdia” para rua Corneteiro Jesus.

Como se percebe através desse livro, a história é revisitada de tempos em tempos e com os olhos e a intenção de quem a visitou. No entanto, o fato central e substancial não foi alterado: o ato de bravura e morte de um corneteiro negro, possivelmente um escravos alforriado para ir lutar na guerra.

Os detalhes, o nome completo, a origem do corneteiro, a presença do general Sampaio foram acréscimos posteriores, cuja gênesis nunca foi completamente esclarecida.

Porém, a busca pela verdade como a que o autor se propôs, envereda por diversas vias, que são tão prazerosas quanto o objetivo final.

Esta obra é, portanto, leitura obrigatória para quem quer saber mais sobre a Guerra do Paraguai e também como a narrativa histórica é construída e reconstruída ao longo do tempo.