Jacareí – Sua História

LENCIONI, Benedito Sérgio, Jacareí – Sua história, São José dos Campos: J.A. Cursino Editores, 2015, 336 p.

Ana Luiza do Patrocínio

Historiadora e doutoranda em Educação pela Universidade Federal São Paulo – Unifesp

 

 “Jacareí, sua história – Iniciação ao estudo histórico de Jacareí”, do professor, advogado e político Benedicto Sérgio Lencioni, foi publicado em 2015.

O autor é o maior estudioso da história de Jacareí, tendo publicado 09 livros com essa temática, desde 1977. Além de manter coluna sobre a história da cidade no jornal “O Semanário” até o presente momento.

A obra em questão procura mostrar a história de Jacareí em 03 fases: o período Colonial, o período Imperial e o período Republicano, parando no final da Segunda Guerra Mundial.

Nela são retratados locais, personagens e acontecimentos numa prosa agradável, mas nem por isso menos descuidada em pesquisa de fontes e livros.

Sendo o autor formado professor pelo antigo “Curso Magistério” e, posteriormente, se tornado advogado, a maioria da suas obras são pelo viés memorialista e tradicional.

O autor, aliás, se considerou em diversas ocasiões como um curioso, reconhecendo que não estudou as diversas escolas historiográficas e que seu intuito é contar a história como a retirou dos documentos que consultou.

Por esse motivo, durante boa parte da sua produção, o doutor Lencioni foi memorialista no sentido de que ele recorreu à própria memória, às histórias contadas por outros ou à simples consulta de documentos oficiais, cujo exemplo chegou em seu ápice em obra anterior do autor, “Retalhos da memória”.

Por muitos anos, ele escreveu também escreveu uma História mais tradicional, sempre se preocupando com os líderes da cidade, personalidades, fazendeiros, pessoas com bom poder aquisitivo, que eram facilmente achados na documentação estatal em função de suas posições sociais.

Em obras mais recentes, no entanto, como “O corneta da Morte”, o autor procurou se aproximar da História das Mentalidades ou historiografia francesa1, ainda que de forma superficial e assim prosseguiu em seus últimos livros. Dessa forma, deixou de lado os políticos e os fazendeiros para também falar sobre as pessoas comuns e mesmo lendárias, questionando mesmo a forma como a história foi escrita.

A presente obra é uma tentativa de abarcar toda a História de Jacareí desde a sua Fundação até a Segunda Guerra Mundial. A preocupação do autor não se limitou às fontes que consultou, boa parte delas já bem conhecida pelos historiadores da cidade, ainda que talvez desconhecida do grande público. Ele também quis fazer uma prosa mais simples e didática para que as pessoas de todas as idades pudessem ler e aproveitar seu conteúdo. E para isso recorreu a sua experiência de mais de 25 anos como professor da rede estadual de ensino.

Os maiores destaques ficam por conta da forma como ele procura descrever o início da povoação do que viria a ser Jacareí, pela primeira vez baseado na história contada no documento de elevação de vila, de 26 de novembro de 1653.

Outros acontecimentos relevantes foram a chegada do trem em Jacareí em 04 de julho de 1876, a constituição da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia em 22 de fevereiro de 1850, a inauguração da energia elétrica em 1895, consequência de uma industrialização acelerada e precoce na região. Será a sétima cidade do país a ter essa tecnologia. Bem como o advento da água encanada na cidade e a ida dos soldados jacareienses para lutar a Segunda Guerra Mundial.

Todos os capítulos podem ser lidos de forma separada, como se fossem pequenas histórias. Esta foi outra escolha do autor, além da forma como ele se dirige ao leitor, como se dialogasse com ele.

A impressão é que ele está falando diretamente a quem lê como se fosse um dos inúmeros alunos que teve ao longo de sua carreira. Ele procura explicar os eventos e chama a atenção para um prédio ou para algo na história que ele julga importante que o leitor/aluno guarde.

Este é o grande ponto forte do livro, o cuidado com as fontes documentais e com a redação, voltada para o grande público.

Outro ponto positivo é recorrer a história cronológica, onde em cada capítulo, ele procurar situar a cidade, seja na época da proclamação da República, seja na época da Segunda Grande Guerra.

O ponto fraco que pode ser dito de vários outros livros, dele e de outros autores, é que sempre a história de Jacareí para no final da Segunda Guerra Mundial.

Mesmo o “Retalhos da Memória”, outra obra do autor já mencionada e que fala um pouco dos anos 1950 e 1960, esta não aprofunda as épocas, limitando-se a contar sobre alguns fatos e pessoas.

Dessa forma, percebe-se que as histórias que abarcam o período posterior à Segunda Guerra ainda procuram autores que se debrucem sobre a documentação para melhor compreender os momentos desde a inauguração da rodovia Presidente Dutra até os momentos atuais, ou pelo menos, até os anos 2000.

Por outro lado, essa delimitação temporal em nada desabona a obra do doutor Lencioni que conta de forma bem didática várias passagens da história de Jacareí, cuja escolha feita pelo autor, reflete sua formação mais tradicional.

A obra é recomendada para os escolares, em especial, a partir dos 9 / 10 anos de idade, podendo ser lido pelos professores trechos em conjunto com seus alunos.

Todos os trechos estão didaticamente escritos, de forma que um professor bem inteirado da obra pode fazer uma leitura e até mesmo uma contação a partir de algumas passagens, como a chegada do trem a Jacareí ou a sua Fundação da cidade com vida, interpretação e riqueza de detalhes, que com certeza captará o interesse de crianças, adolescentes e adultos.

[1] Muito a grosso modo, a Historiografia francesa estuda as permanências e as rupturas dentro da História. A história, inclusive, pode ser lida por várias camadas que podem se desenvolver mais rápidas do que outras. Um exemplo, estruturas políticas e sociais se modificam de forma rápida, mas o comportamento e o pensamento predominante demoram mais para mudar. Outra característica dessa escola é aceitar inúmeras fontes documentais além da estatal.