Jacareí e as questões controvertidas

Ana Luiza do Patrocínio

Historiadora e doutoranda em Educação pela Universidade Federal São Paulo – Unifesp

 

Cinco anos após a edição de “O negro na História de Jacareí”, o professor Benedicto Sérgio Lencioni publicou em 1994 “Jacareí e as questões controvertidas”.

O título abraça a ideia de que as questões propostas pelo autor devam ser analisadas e discutidas, não se arvorando ele como o único detentor da verdade. De fato, muitos dos fatos aqui colocados até hoje geram acalorados debates no município.

Nessa ocasião, o autor se colocou como membro do Instituto de Estudos Valeparaibanos, por isso é interessante falar um pouco dessa organização.

O Instituto conhecido mais pela sua sigla IEV surgiu a partir do I Simpósio de História do Vale do Paraíba ocorrido em 1972, e a partir da iniciativa de historiadores de variadas cidades liderados pelo professor universitário José Luis Pasin, de Roseira.

O IEV foi fundado em 1973 tendo como escopo o estudo da região como um todo, não só o histórico patrimonial, mas também o seu desenvolvimento social e ecológico; este último, um problema que começava a se tornar importante na década de 1970.

Atualmente, a instituição tem o seu acervo bibliográfico e o Centro de Documentação sobre o Vale do Paraíba abrigados na Universidade Salesiana de Lorena – UNISAL, continuamente alimentado por pesquisas e trabalhos de diferentes tipos e áreas de conhecimento, mas tendo como tema comum o Vale do Paraíba.

Com relação ao livro, ele inaugura uma fase questionadora, e por que não dizer contestadora, do autor. Ele seleciona alguns tópicos controversos para disseca-los; alguns se tornariam muito conhecidos, outros só seriam vistos nessa obra.

Portanto, a obra se divide em prefácio e sete capítulos, sendo que dois deles se subdividem em tópicos.

São eles: a ordem das vilas paulistas, Jacareí e a questão Monsanto, o nome da cidade, quem fundou Jacareí, a data de fundação, o sítio inicial e as divisas do município.

Jacareí foi a décima terceira vila a ser fundada na capitania de São Paulo e a terceira do Vale do Paraíba.

É aqui, pela primeira vez, que o professor Lencioni contestou a narrativa oficial da fundação de Jacareí, questionando fatos, circunstâncias e personagens. E principalmente as datas.

Como é possível que um povoado fundado supostamente em 1652 em mês incerto pode se tornar vila em novembro do ano seguinte?

E ainda colocar em seu documento de elevação de vila que haviam crianças com necessidade da água do batismo.

Um povoamento desses supõe, pelo menos, alguns anos de existência (e mesmo décadas), entre cultivo e colheita de produtos da terra, vivências num lugar durante todas as estações climáticas, número suficiente de colonos e pessoas dispostas a se estabelecer ali, constituindo famílias, num povoamento estável.

E nesse cálculo nem está entrando o tempo que se levava uma correspondência de um lugar para outro. Além dos despachos e a burocracia de um Império, que ainda estava em expansão no momento, para confirmar a criação daquela vila.

Não. Não havia tempo nem fazia sentido.

Este tema é o ponto fulcral desta obra que pormenoriza outros aspectos tais como o primeiro local de povoação e os limites da cidade, bem como a quase inédita “Questão Monsanto”, pouca conhecida fora dos círculos dos historiadores.

O livro é indicado a todos os curiosos sobre a história de Jacareí a partir, principalmente, do Ensino Médio, por abordar alguns aspectos mais complexos da História do Brasil durante o período colonial.