FEB 70 anos, os pracinhas de Jacareí na 2ª Guerra Mundial

Ana Luiza do Patrocínio 

Doutoranda em Educação pela Universidade Federal São Paulo 

A participação do Brasil na Segunda Guerra sempre foi um tema ora esquecido, ora polemizado, muitas vezes pelos motivos errados. O fato é que nós não procuramos nos envolver no conflito (iniciado em 1939) até 1943 quando não foi possível ignorar os ataques que os nossos navios sofreram durante o comércio com os Estados Unidos e com as nações aliadas na Europa. Sendo que os últimos foram mais preocupantes, posto que foram realizadas em águas territoriais brasileiras. 

Diante disso, manifestações foram realizadas no Brasil pedindo a entrada do Brasil no conflito ao lado das nações aliadas (Estados Unidos, Inglaterra e França, principalmente). O que aconteceu depois é o tema deste livro. 

“FEB 70 anos, os pracinhas de Jacareí na 2ª Guerra Mundial” foi um livro feito em lembrança aos 70 anos da partida do primeiro escalão de soldados que foram à luta no norte da Itália, em julho de 1944. Lançado em 15 de novembro de 2014, foi patrocinado pela LIC (Lei de Incentivo à Cultura) de Jacareí, escrito pela escritora e psicanalista Ana Maria Blumle e pela historiadora e doutoranda em Educação Ana Luiza do Patrocínio. 

Ana Maria Blumle é psicanalista, pianista, concertista e maestrina. É filha de Artur Blumle, um dos sócios do cotonifício “Pedra Santa”, empresa aqui de Jacareí que chegou a empregar quase 700 operários nas décadas de 1940-50. Muitos desses empregados eram ex-combatentes e foi o convívio com eles e suas lembranças que fez com que ela sentisse a necessidade de fazer uma homenagem aos 153 jacareienses que foram à Europa combater as tropas nazifascistas. 

Ana Luiza do Patrocínio é bacharel e licenciada em História pela Universidade do Vale do Paraíba, possui mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com a dissertação “Homens livres, escravos e senhores no município de Jacareí, de 1840 a 1870”. Atualmente, é doutoranda em Educação na Universidade Federal São Paulo – Unifesp. 

A obra foi dividida em 03 partes. 

A primeira é uma contextualização histórica do mundo e do Brasil na década de 1940, quando o país se viu na contingência de declarar guerra a países com quem tinha boa relação diplomática. Entretanto, os afundamentos dos nossos navios em águas internacionais, e mesmo em território brasileiro, forçou o presidente Getúlio Vargas a promulgar o “Estado de Guerra” ainda em 1943 contra os 03 países do chamado “Eixo”: Alemanha, Itália e Japão. A partir daí uma série de leis e decretos criou e organizou a Força Expedicionária Brasileira (FEB), com o contigente das 03 armas: Marinha, Exército e Aeronáutica. 

Ao mesmo tempo, diante da gravidade do conflito e como forma de auxiliar as tropas que seguiriam para a Europa foi criado o 1º batalhão da Saúde, subordinado à 1ª Divisão de Infantaria, um setor composto de médicos e das enfermeiras chamadas de febianas, voluntárias que deveriam ser solteiras ou viúvas, e que foram treinadas para agir no campo de batalha e nos hospitais de retaguarda. 

Essa primeira parte é recheada de informações que não se encontram em todos os lugares, como a participação da Marinha e da Aeronáutica e a importância do local onde a FEB atuou na Itália, a linha Gótica, uma defesa montada pelos alemães no vale do Pó e que deveria ser rompida pelo 5º Exército norte-americano, comandada pelo general Mark Clark. A este comando estavam subordinados os brasileiros quando lutaram na Itália. 

A segunda parte explica o conflito em si e o caminho que a  
FEB percorreu até a sua última batalha, vencida em 29 de abril de 1945, coroada com a rendição de um general comandante do 147ª batalhão alemão, que preferiu entregar suas armas a uma tropa brasileira e não a uma tropa norte-americana. 

A terceira parte fala especificamente sobre os pracinhas jacareienses, que foram para a Europa, incorporados ao 6º Regimento de Infantaria de Caçapava (atual 6º Batalhão de Infantaria), um dos 03 regimentos que foram à Itália. 

Depois, foi mostrado como chegaram, como foram recebidos, notícias de jornal, fotos, dados sobre a maioria deles, relação dos soldados que partiram no primeiro escalão em julho de 1944, e que retornaram no mesmo mês em 1945. 

Destaca-se nessa relação o nome do soldado João Américo da Silva, o único a morrer em batalha. 

Escrito a duas mãos, ele é irregular, principalmente quanto às informações dos pracinhas, uma vez que se dependia muito das informações reunidas pela própria Associação de Ex-combatentes, cujas fichas nem sempre estavam completamente preenchidas. Infelizmente, na época do lançamento do livro, estavam vivos apenas 03 combatentes, que poderia deixar seus testemunhos. 

No entanto, cumpre sua função de não deixar que um momento histórico como esse fosse esquecido e mostra informações que não costumam ser usuais, o que enriquece sobremaneira a sua narrativa. 

Outra riqueza reside nos seus inúmeros Apêndices, onde são mostradas fotos, recortes de jornais, tipos de armamento dos dois lados em guerra e decretos.  

Fruto de quase dois anos de pesquisa, feita de forma irregular, devido a escassez de fontes e de testemunhos, o livro é uma porta de entrada para quem quer saber mais sobre o conflito e um complemento importante para a história da cidade, ao relacionar os seus pracinhas e valorizar as suas histórias. Principalmente as fotos que dão à História uma face humana. É indicado para todas as idades, principalmente, a partir do Fundamental II.